Cidade de Araras realizou manifestação feminista
Natália Campos
A Marcha das Vadias de Araras começou a ser preparada em meados de maio e junho de 2012, com o objetivo de reunir principalmente mulheres de todas as idades, raça/cor, classes sociais, orientação sexual, identidades de gênero, do meio urbano e rural para protestar contra a violência sexista contra as mulheres, desencadeada pela cultura machista, racista, homofóbica e capitalista e também com o objetivo de organizar um grupo atuante pelas causas das mulheres no município.
Foram promovidas palestras e debates em espaços públicos, abertos a toda população, sobre violência, gênero, saúde da mulher, entre outros temas. O objetivo foi mobilizar a população ararense a marchar e reivindicar tais direitos junto às mulheres do município em agosto de 2012.
Em seguida, como ferramenta de divulgação, o núcleo-organizador da Marcha criou um grupo na rede social Facebook, com o propósito de divulgar as reuniões e atividades que desempenhariam durante todo o processo de realização da Marcha. O grupo denominado “Marcha das Vadias- Araras/SP tornou-se um espaço de troca de informações, material relacionado ao feminismo, gênero e afins.
A concentração da Marcha ocorreu em Araras, no Calçadão Central “Monsenhor Quércia” na manhã do dia 8 de setembro de 2012. Foram confeccionados cartazes expondo os propósitos da Marcha. Mulheres pintaram seus corpos expressando a autonomia sobre eles e sobre suas vidas; militantes da luta e/ou vítimas de violência tomaram fala no carro de som agregando passantes; a batucada feminista de mulheres, que fez parte do processo de construção da Marcha, reproduziu rimas como: “A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria!” e gritos, como: “Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!”. Aproximadamente 100 pessoas participaram da mobilização, entre elas adolescentes, jovens e adultos, homens e mulheres.
Segueom fotos do Movimento em Araras
Crédito das fotos: Eliane Pessotto
Após a Marcha das Vadias, um grupo de mulheres ararenses se agregou coletivamente, num planejamento no que diz respeito à organização, à formação sobre o feminismo, gênero, sexualidade, descriminalização e legalização do aborto, mercantilização do corpo e da vida das mulheres pela mídia e pelo mercado de consumo, sobre o trabalho produtivo e reprodutivo, a violência contra a mulher, entre outros temas. A intenção foi traçar um calendário de luta e de reivindicações por políticas públicas específicas para as mulheres no município.
A Marcha das Vadias de Araras cumpriu um objetivo básico que era a formação ou reunião de pequenos grupos coletivos que já atuavam de alguma maneira na cidade pelas lutas das mulheres e de reunir também pessoas que já se identificavam ou que passaram a se identificar com essas lutas, mas que não faziam parte de nenhum grupo, com o intuito de fortalecer a atuação de todos na cidade, especialmente pela mobilização da implantação de políticas públicas/estruturas que atendam às demandas das mulheres em todos os aspectos no município, seja na saúde integral da mulher, segurança, cultura, entre outros.
“As reuniões são abertas a todas as mulheres que queiram participar, assim como as que já militam em outras frentes como no movimento LGBT, movimento negro, na luta antimanicomial, entre outros movimentos. Há também debates abertos e temos articulado outras atividades que envolverão a população local”, explica Caroline Maciel, uma das organizadoras da Marcha.
A decisão em ser um grupo organizado só por mulheres vem da necessidade de reunir, debater e compreender de que maneira as mulheres são oprimidas cotidianamente para, então, compartilhar e desconstruir com toda a comunidade um modelo cultural que coloca o homem e, principalmente, a figura masculina como opressora/dominadora que agride e vitimiza de diferentes formas mulheres e pessoas - de ambos os sexos - que não se encaixam nesse modelo machista, racista, homofóbico pré-estabelecido.
Histórico do Movimento
A Marcha das Vadias é uma manifestação que aborda a violência exercida contra as mulheres por denunciar as verdadeiras causas dessa tão recorrente violência e trazer o questionamento para as populações das deficiências dos sistemas públicos em socorrer, coibir e prevenir esse tipo de ação que vitimiza mulheres em toda sua esfera cotidiana, assim como, aponta a necessidade de mobilização e organização dessas sociedades em prol de um bem comum, formando sujeitos políticos.
Tudo começou no Canadá, em abril de 2011, quando, em resposta à afirmação de um policial que, durante uma palestra sobre segurança em uma universidade de Direito, disse que as mulheres evitariam o estupro se não se vestissem como “sluts”, vagabundas.
A indignação gerou grande repercussão em diversos países do mundo, como Índia, África do Sul, Alemanha, Austrália. E o Brasil não ficou de fora alcançando Araras, interior de São Paulo.
Confira
,abaixo, depoimentos de participantes da Marcha das Vadias em Araras:
Valdir Servilha, 61 anos
“Tenho
três filhas, Nathaly 25, Nathasha 22 e Nathalia 18. Elas participaram da Marcha
das Vadias desde a criação do evento. Foi extremamente emocionante e prazeroso
pra mim ter participado. Uma das melhores realizações estar ao lado delas nesta
luta. É importantíssimo pra mim, pois como pai de mulheres eu desejo e também
luto por um mundo melhor para elas”.
Rodrigo Nascimento Cremasco,
24 anos
“Participei da Marcha
com uma placa com a seguinte frase: "O feminismo também me liberta, porque
o machismo também me aprisiona". Eu, homossexual assumido, sofro, também,
as consequência dessa sociedade machista. Nas ruas, no dia da marcha, víamos
várias pessoas fazendo cara de rejeição, mas muitas outras nos apoiavam,
aplaudiram e se juntavam ao movimento. A sensação é de garra, força. Sensação
de que podemos sim, mudar a cultura do estupro e da mulher como objeto sexual”.
Adriana Dezotti Fernandes, 49 anos
“Acredito na
Ecologia e acredito que quanto mais diversidade humana, maior o ganho, mais
rico esse "ecossistema" que acabamos compondo. Cada uma e cada um tem
algo a acrescentar. O mais importante é que nos fortalecemos e criamos um grupo
de pessoas "ponta firmes", ágeis, dispostas e comprometidas. Gente
que fala e faz. Isso é muito raro por aí...”
Paulo Eduardo Remédio Felisberto,
27 anos
“Sendo homem e
participando de uma marcha feminista, eu me senti muito bem e muito bem-vindo!
Acabei por compreender assuntos que não podia compreender sendo homem, mesmo
que solidário ao feminismo. Este diálogo e aprendizado são ricos para entender
como a mulher sofre na carne e alma com o preconceito.
A mistura de gerações é algo que sempre me encantou nas vivências em grupo. É
algo fundamental para a riqueza das trocas na formação de um coletivo”.